Capa do livro

Ribamar

Ícone de premiado
Jabuti 2011 · Romance
José Castello
twitter logo facebook logo linkedin logo

Sobre o livro

“Esse menino sofre dos nervos”, é um Sampaku, “alguém incapaz de ter uma reação adequada ao perigo”, os seus olhos estão desviados, apontam para cima; tem olhos, o menino José, de peixe morto, mas o médico dos olhos diz que está tudo bem e, sim, está tudo bem e tudo mal; a semelhança com os olhos do pai é isso: a única maldição que desejamos, o desejo que mais amaldiçoamos.O hipnotizador não endireita os olhos do menino, não lhe tira o sofrimento dos nervos; a lâmina não torna o nariz mais discreto, a coisa não resulta com a faca --- mas há isto: a sensação de que o nariz não está bem, de que os olhos erram, de que a posição no mundo não é a correta --- está a tímida peça de xadrez perdida no tabuleiro de um outro jogo.Carta ao pai que acompanha a carta ao pai de Kafka. Kafka, o escritor minhoca; escreve como se rasteja e poderemos pensar que em parte é isto: trata-se de ver se os traços que o nosso rastejar deixou atrás conseguem ser decifráveis, se foram transformados ou não num livro ou se são, afinal, como os gatafunhos ilegíveis do velho demente de Ribamar, que é cego e por isso não precisa de escrever nada que se entenda.Em Ribamar aproveita-se uma queda para avançar; rastejar não é afinal assim tão mau: é o avanço de alguém que caiu e não quer, ou não consegue, levantar-se. O golpe que o derrubou foi demasiado forte --- e nascer é um pouco isto: um golpe de que por vezes só recuperamos muitas décadas depois.E ainda a visita à tia louca que imita as galinhas e talvez escreva no chão sim; sim que é, apesar de tudo, uma das mais belas palavras, mesmo que não tenha destinatário ou assunto, mesmo que não haja questão prévia. E é isso mesmo: à distância, do sítio de onde conseguimos ver, o que parece que Castello escreve no chão é um sim, e este sim talvez seja dirigido ao pai, um sim que também aparece depois de pergunta nenhuma. Trata-se em Ribamar, escreve Castello, de “tomar posse de meu pai”, como se o pai fosse “um cargo público ou um pedaço de terra”. Não se trata de entender, de retomar ou reconstruir “as ruínas que ferem mas não assustam”, trata-se apenas de dizer um sim, que não é de obediência, um sim que não vem de lado nenhum mas ali fica. Quando o menino José se sentava entre as plantas, para que não o vissem --- esse sentar era também já um modo de dizer sim.Ler é expor-se --- como se escreve nos capítulos Kafkas --- mesmo na leitura mais privada. Ribamar é pois uma coisa que nos interpreta. Este livro, que insiste em nos querer ler, altera então a ordem natural das coisas. Quem escreve está a entrar na nossa intimidade; como sabe ele tanto dos nossos? E talvez por isso nos emocionemos.E sim, rasteja-se, mas em Ribamar também se avança, passo a passo, muitos metros acima do solo. Também isto, portanto: serenidade na caminhada. Como um funâmbulo que tivesse a certeza de que vai chegar ao fim, e fosse capaz de suportar a tentação do quero descer; funâmbulo que avança, tranquilo, sabendo onde está e quanto falta (12/18, 13/18, 14/18).Isto, portanto: o máximo de pontos sobre o solo (rastejar) e o mínimo de apoios no solo (o avançar do funâmbulo). Entre os dois momentos, antes ou depois --- a queda, sempre.Não basta fazer, é necessário salvar o que se fez --- alguém escreveu. E, de certa maneira, é isto que todos os que fomos lidos por este livro exigimos --- o impossível, claro: que quem nos fez nos salve. Gonçalo Tavares

Páginas

280

Editora

Bertrand Brasil

Como associado da Amazon, Livros Premiados recebe por compras qualificadas.

Outros premiados na categoria Romance Literário

Outros premiados em 2011